Em Blumenau, SC, a família Mendes comanda com sucesso uma das melhores e mais ousadas cervejarias do país

por André Clemente fotos Ricardo D’Angelo

Após alguns anos morando em Boston, nos Estados Unidos, os irmãos Juliano e Bruno Mendes foram conhecer a cervejaria Samuel Adams, uma das mais importantes do país. Foi paixão de primeira. A marca é muito respeitada e sua ligação com a cidade é muito forte para quem olha de fora. Ela é a maior fabricante americana de cervejas especiais.

A princípio, os Mendes falavam sobre as particularidades da simpática Blumenau, cidade de colonização germânica em que vivem. Blumenau é considerada a capital da cerveja no Brasil, e palco da segunda maior Oktoberfest do mundo. Só perde para a da Alemanha. Fora isso, a cidade já abrigou dez cervejarias.

 
Eles não tinham dúvida: a cidade já tinha um nome forte, precisava apenas de uma fábrica que produzisse uma cerveja de qualidade, tal qual a Samuel Adams. Voltaram de viagem e não demorou para que os dois recebessem total apoio da família, que já tinha o néctar dourado correndo nas veias. A avó paterna produzia cerveja caseira especialmente para o filho Jarbas. Continuar com a história era uma questão de tempo. Foi assim que começou a nascer a Eisenbahn (que significa estrada de ferro), cerveja lançada em julho de 2002 e que já conquistou a simpatia de milhares de consumidores no país. Começou com uma produção de 46 000 litros por mês e três tipos de cerveja: a Pilsen, a Dunkel (escura) e a Pale Ale (âmbar), receitas assinadas pelo mestre-cervejeiro alemão Gerhard Beutling, profissional dos mais competentes, com 25 anos de atuação no setor, formado pela mais antiga
cervejaria do mundo, a Weihenstephan, na Alemanha, do ano de 1040.

Como o objetivo da Eisenbahn não é competir com as grandes cervejarias, mas sim oferecer ao consumidor um produto diferenciado e com opções de tipo, investiuse desde o início em matéria-prima de qualidade. Os maltes e os lúpulos que utilizam são importados de diversos países e seguem à risca a Lei de Pureza de 1516, da Baviera. Nela, estava registrado que a cerveja só poderia conter lúpulo, água e malte. No século 19, foi admitido o uso de leveduras. Mas parou por aí. Cereais não maltados, arroz e milho são terminantemente proibidos. No início, o produto era apresentado apenas na forma de chope. A boa aceitação do consumidor, antecipou o lançamento da versão em garrafas long neck. Porém, quem encontra hoje as garrafinhas nas gôndolas dos supermercados não imagina o trabalhão que deram. “Como as cervejas tinham de passar pela pasteurização, para aumentar o tempo de vida,
 
perdemos muitas garrafas, que quebravam”, conta Juliano. “Tivemos muita dor de cabeça, mas não desistimos do projeto.”

 
Hoje, possuem dois tanques de 575 garrafas cada um, para a pasteurização, e a quebra das garrafas já não é páreo para a satisfação em ver a cerveja brilhando nos bares e restaurantes badalados de todo o país. Para atender a essa demanda, atualmente, a produção já está nos 215 000 litros ao mês. A linha de produtos também cresceu. Além das três iniciais, produzem a Weizenbier, de trigo; a Pilsen Orgânica; um licor de cerveja, feito com base na Dunkel; a Kölsh, cerveja tradicional da região de Colônia, na Alemanha; a Strong Golden Ale, uma cerveja forte, típica da Bélgica; a Rauchbier, feita com malte defumado, ótima companhia para charutos e carnes de caça; a Weizenbock, para os dias mais frios, a Weihnachts Ale, tipo especial de Natal, uma delícia, com sabor e aroma de especiarias ea Lust, cerveja feita pelo processo champenoise, o mesmo dos grandes champanhes. Ela passa três meses em cave.

Visitar a cervejaria é uma delícia. Ela tem um bar interno, separado da fábrica apenas por um vidro, onde várias atividades acontecem. Bandas típicas alemãs se apresentam; campeonato de chope de metro, para ver quem bebe mais em menor tempo – o recordista Gilson, que vira 600 mililitros, em apenas 11 segundos e 2 milésimos sempre desafia os visitantes. Se não bastasse, o atendimento é cordial e muito  
atencioso, mostrando que não bastam investimentos para se tornar um sonho em realidade. O amor e o trabalho, muito trabalho, são fundamentais.



AS CERVEJAS
Pilsen (teor de álcool: 4,8%) – É o tipo de cerveja mais consumido no mundo e no
Brasil. Clara, de cor dourada, de baixa fermentação e com leve amargor.
Dunkel (teor de álcool: 4,8%) – De baixa fermentação, sua cor é proveniente de maltes mais torrados, não leva adição de açúcar ou de caramelo. É mais encorpada do que a Pilsen, possui cinco tipos diferentes de malte na composição. Notas de café, chocolate e torrefação.
Pale Ale (teor de álcool: 4,8%) – Típica cerveja inglesa e belga, de cor âmbar, de cobre. Mais encorpada, com aromas frutados e complexos e um amargor pronunciado. É feita com três tipos de malte.
Weizenbier (teor de álcool: 4,8%) – Cerveja com 50% de trigo e 50% de cevada. É clara e por não ser filtrada, é turva, conservando um pouco do fermento em cada garrafa. Refrescante, com aromas de banana e cravo e um paladar frutado. Típica do sul da Alemanha.
Weihnachts Ale (teor de álcool: 6,3%) – É produzida apenas no fim do ano. Segundo a tradição, os monges que elaboravam cerveja na Europa, separavam os melhores ingredientes do ano para fazer uma cerveja especial para festejar o nascimento de Cristo. É uma Amber Ale, cobre-avermelhado, bem encorpada e frutada, com aroma de lúpulo. Possui três tipos de malte.
Pilsen Orgânica (teor de álcool: 4,8%) – É a primeira desse tipo no Brasil. Leve, cor dourado-claro, saborosa e com baixo amargor. Produzida apenas com produtos sem agrotóxicos e fertilizantes sintéticos e um único tipo de malte.
Weizenbock (teor de álcool: 8%) – O mesmo tipo da Weizenbier, só que escura. Feita com cinco tipos de malte. Não é filtrada, conservando o fermento na garrafa. Sua cor é vermelho-escuro, com toques de torrefação ao paladar, banana e canela.
BierLickör (licor de cerveja) – É o primeiro licor de cerveja no país. Possui 30,47% de álcool. Feito da cerveja Dunkel, é escuro, com notas de café, chocolate e baunilha.
Kölsh (teor de álcool: 4,8%) – Essa Ale é típica de Colônia, na Alemanha; fora de lá, não pode receber essa denominação. Feita com quatro tipos de malte, é clara, brilhante e tem leve amargor; na boca é seca.
Lust (teor de álcool: 11,5%) – É a primeira cerveja do Brasil que passa pelo processo champenoise. Sua produção continua seguindo os padrões de qualidade já conhecidos dessa cervejaria. O que muda no processo é o seguinte: depois de pronta a primeira etapa do processo, obtém-se uma cerveja dourada, de alta fermentação, muito frutada e com teor alcoólico de 8,5%, tudo isso graças aos ingredientes selecionados. Nesse caso, foram utilizadas leveduras especiais da Bélgica. Logo após, a cerveja segue para uma vinícola em Santa Catarina, onde é envasada em garrafas de espumante e adicionados açúcares e leveduras de vinho, para a segunda fermentação, na garrafa. Isso dura três meses nas caves, passando pelo processo champenoise. Após esse tempo, a levedura e a borra ficam depositadas no gargalo da garrafa, a qual é congelada e, depois de aberta, a pressão expulsa o sedimento, deixando um líquido brilhante e límpido. A cerveja é dourada, com ótima formação de espuma e perlage, com aromas de nozes, laranja e abacaxi e sabor de cevada.
Strong Golden Ale (teor de álcool: 8,5%) – Cerveja típica da Bélgica, possui notas de especiarias, lúpulo e álcool, sua cor é dourado intenso.
Rauchbier (teor de álcool: 6,5%) – A cerveja foi desenvolvida com a ajuda do expert em charutos César Adames. Ela possui um paladar seco e defumado, coloração avermelhada, feita com base em cinco maltes defumados. Seu sabor combina com charutos baianos e dominicanos, segundo Adames. A companhia ideal para a cerveja são os Petit Coronas, Robustos e Belicosos; seu tempo de consumo gira em torno de 25 a 40 minutos.

 


OURO LÍQUIDO

Com colonização germânica, Blumenau, mesmo com poucos moradores, já aparentava uma tendência à cidade cervejeira. Foi no dia 8 de julho, de 1927, que foi inaugurada a primeira cervejaria, a Otto Jenrich. Seu fundador nasceu em 1968, filho de pais alemães.
A cervejaria durou pouco, mas a história dela não. Acreditava-se que Otto havia cimentado ouro junto as paredes da propriedade. Não teve jeito, a família Kielwagen, atual proprietária do imóvel, acabou com esse suspense, derrubou o muro atrás do ouro, e achou, 3 garrafas de cervejas com o ouro liquido dentro, a cerveja. Dentro de uma delas, havia uma carta onde Otto contava a história da cervejaria e dedicava 3 brindes para quem achasse seu tesouro. Hoje, as garrafas se encontram no Museu da família Colonial.
Segundo a proprietária, Edith Kielwagen, ainda pode haver mais segredos dentro dos muros da cervejaria e conta que seu grande sonho é poder restaurar a antiga construção.

 

Cervejaria Sudbrack
Rua Bahia, 518, Salto Weissbach,
CEP 89032-001, Blumenau, SC.
Tel. (47) 330-7371 / fax (47) 330-8146
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