Entrevista - Ed Motta

Apaixonado por cerveja e grande conhecedor do mundo gastronômico, esse cantor de voz explosiva e encantadora mostra que é exigente e muito bem entendido quando o assunto é música e cerveja.
Ele conta com exclusividade para BEER como começou seu interesse pela cerveja e como, hoje, harmoniza com facilidade essas duas grandes paixões.
Um entendedor, amante, poeta e apaixonado pela arte, Ed Motta realmente ama a vida e tudo aquilo que faz parte dela. Essa é a primeira impressão de quem fica frente a frente com ele.

por Xavier Depuydt fotos Ricardo D’Angelo

BEER – De onde vem seu interesse pela gastronomia?
Ed Motta – Meu interesse pela gastronomia vem dos meus pais, que sempre deram muita atenção à alimentação; sempre utilizaram ingredientes e temperos diferenciados e isso fez evoluir meu paladar.

Qual foi seu primeiro contato com a cerveja?
Meu primeiro contato foi nos Estados Unidos, com a cerveja Budweiser; eu a bebi da garrafa, foi algo sem importância. Quando voltei para o Brasil, bebia as nacionais e as achava mais fracas do que as que havia bebido nos EUA. Foi o Máximo (ex-dono do Caroline Café) quem me apresentou a Duvel e falou “você pensa que é só vinho que é sofisticado, que é complexo; vou te dar uma cerveja que você não vai acreditar!”. Bebi a Duvel e repeti no outro dia. Não parei mais. A Duvel é como o blues.

É verdade, combina com tudo.
Combina com tudo. E, depois de beber Duvel, foi a vez da Hoegaarden, que conheci no Belgian Beer Paradise, mas, o que deu mesmo o start, foi quando provei a Karmeliet. A partir dela, comecei a pesquisar, a ler. Toda a maluquice que tenho com um monte de outras coisas, eu transportei para esse mundo também.

Qual a qualidade que você mais aprecia na cerveja?
A cerveja tem um espírito que lembra o champanhe; ela é superfestiva, feliz. O vinho é mais austero; adoro as duas coisas, maso vinho tem uma coisa mais sombria, e a cerveja é sempre mais expansiva.

Qual país tem a cerveja mais sofisticada e o que a separa das outras?
A Bélgica é para a cerveja como a França é para o vinho. Os franceses têm a grande excelência nos vinhos; tanto o lado comercial, como a maravilha da terra e da natureza. Foi Deus quem fez isso, não foi o homem. Acho que deve ter alguma coisa de interessante em outros lugares. Pode ter uma grande cerveja no Brasil, na Alemanha, mas é só. Depois da Bélgica, acho que a República Checa e a França têm boas cervejas, mas são muito aguadas.

A maior concentração das melhores cervejas está na Bélgica?
Sem dúvida nenhuma. Na Bélgica.

O que você acha sobre a frase “não existe a melhor cerveja e sim o momento que você tomou uma ou outra marca?
Cada vez mais acredito nisso; quando descobri, por exemplo, as Lambics, que são cervejas super-radicais, eu as chamaria até de cervejas intelectuais, passei a acreditar nisso. Existe uma alegria na cerveja... Uma vez você tinha me falado “A Duvel é interessante”, e é verdade. Outro dia fiquei com vontade de beber uma Duvel e estava com pressa; então, desci a rua a pé para pegar um táxi e fui beber uma Duvel. Estava tão boa! O prazer que ela me deu não é como o prazer de agora, foi um prazer diferente; agora, é um outro momento; tem uma degustação, um prato importante, um encontro; mas aquele dia, não, eu estava andando na rua, simplesmente para ir beber uma Duvel; e é uma delícia; de repente não seria essa de agora a sensação daquele momento.

Isso prova claramente que essa frase é verdade.
Eu acho que sim.

Conte-nos um momento inesquecível na qual você tomou uma cerveja que para aquele instante foi a melhor do mundo.
Pra mim foram aquelas Achel sem rótulo, (Achel Extra Blond). Mesmo gostando de várias coisas, me emociono quando lembro; eu penso “é essa que eu gostaria de beber, sei lá, no Natal...”.

Tem alguma cerveja que você ainda não experimentou, e conta as horas para que isso aconteça?
A Saison Fantome, não a bebi ainda; só bebi a comum, mas tem as especiais que quero provar. Minha maior curiosidade até agora ainda é isso; tem a americana New Glarus também.


Muito boa. Parece muito Liefmans. Uma cerveja para degustar tem sempre o mesmo paladar ou ela está constantemente evoluindo?
Ela está constantemente evoluindo, assim como o vinho. As pessoas se enganam, num país como a Bélgica, que prepara a cerveja de forma artesanal e apaixonada, as cervejas mudam de ano para ano; como o lote de Karmeliet que tem um gosto, e o lote seguinte tem outro e daqui a um mês tem outro gosto. Ela vai mudando constantemente; não é uma coisa que fica parada, é um ser vivo. Por exemplo, a Cantillon, já vi que gosto de bebê-la um pouquinho mais envelhecida; ela fica menos ácida, mais turva, mais densa, então varia. Com a Duvel é exatamente isso. A Duvel é boa no frescor dela.

Você como apreciador de ambos, faz comparação entre o vinho e a cerveja?
Faço. Comparo tudo com tudo. Eu comparo a cerveja com a música, comparo vinho com música, com cinema, com arte. As pessoas dizem que a vida não é comparação. Acho que a vida é, sim, uma comparação; a vida é observação e comparação. Por exemplo, eu trouxe um vinho da “Côte de Jura” pensando “Ah! O Xavier vai achar interessante; é quase uma Lambic”; acho que existe uma comparação, uma relação. Uma trapista preta com um Bordeaux, uma Abadia com um Borgonha.

Você é conhecido como degustador de vinhos. Como seus amigos reagiram quando você começou a ter interesse por cerveja?
Pergunta polêmica (risos). A verdade é que meus amigos do meio do vinho nunca levaram muito a sério essa coisa da cerveja. Só agora que está havendo uma certa abertura pra isso. Sou um cara aberto na vida com tudo, tento observar o que me aparece na vida; procuro analisar. Numa época, me afastei um pouco da turma do vinho, porque eu ficava chateado com esse preconceito com a cerveja, de acharem que a cerveja era inferior; a cerveja não é inferior; é a mesma coisa de falarem que os Rolling Stones são inferiores a Beethoven só porque um é rock e o outro é música clássica; cada coisa tem seu lugar, sua colocação, seu momento, seu nicho.

Sim, mas deixando claro que não estamos falando de cervejas para ser tomadas no dia-a-dia; estamos falando de cervejas mais sofisticadas.
Sim, cervejas aristocráticas.

Quais são os aromas e sabores que você já encontrou na cerveja?
Já encontrei muitas coisas complexas. Muitas especiarias, canela. Na St. Foullien já encontrei aromas de chocolate, queijo, pêssego, damasco; nas Lambic, que adoro, a nota de fermento é o principal, …aquele fermentinho lá no fundo… eu adoro aquilo, acho que aquilo é uma grande graça.

Você já foi à Bélgica fazer show. Qual foi sua impressão com as belgas e com as cervejas belgas; como você foi recebido?
Fui recebido maravilhosamente bem. Conheci o recepcionista do hotel; fiquei duas horas conversando com ele sobre cerveja e, eu havia comentado que não tinha gostado muito da Belle Vue, ele me deu um abraço e falou que gostava de Westveleteren. Tive uma surpresa, no meu quarto tinha uma Westveleteren de cada tipo e o copo para cada uma. A Bélgica tem uma característica interessante que, quando lá começa a ficar meio norte, começa a parecer um norte com coração italiano. O festival a que eu fui era tudo, aquelas geladeiras abertas com várias Maredsous, muita comida, tudo à vontade, todo mundo alegre, contente, todo mundo em celebração, as pessoas felizes.

A alegria das cervejas você encontrou nos belgas?
Toco na Europa desde 1992 e nunca tinha ido à Bélgica. Nunca vi aquilo, 3h30 da manhã tinha criança, tinha de tudo e isso foi uma imagem muito interessante, viva. De um lado tinha um restaurante; até meio sofisticado que estava servindo até as 4 da manhã um cordeiro e, ao lado, tinha a pizzaria Sparro; acabei indo aos dois porque como eram 4 da manhã, o barulho da rua era tão grande, crianças, gente gritando, batendo em coisas… desci e falei “vou descer porque quero participar disso também”. Desci e fui beber De Koninck e comer mexilhão, enfim, foi algo fascinante. Os melhores cordeiros que comi foi na Bélgica. Tenho uma ligação com a Bélgica antes da cerveja; com as Bande desin’e (quadrinhos), com Tin Tin, Blake & Mortimer e, tudo isso sempre foi uma fissura minha.

Você tem a maior coleção de quadrinhos belgas do Brasil?
Sim, tenho 15 000 quadrinhos.

Quais são suas cervejas favoritas? As Top 5?
Tripel Karmeliet. Karmeliet é como ouvir “Sailing”, de Christopher Cross, porque foi a minha primeira namorada (Karmeliet); algo que ficará meio intocável. A Cantillon, a Lou Pepe Kriek, a Rochefort 10, a Achel Extra Blond, a Liefmans Goudenband.

Qual cerveja você não pode deixar de ter em casa?
A Karmeliet, a Goudenband e, principalmente, a Cantillon. Bebo muito a Cantillon.

Música combina com cerveja. Há uma música para cada cerveja?
Há, sim, claro; até porque, por exemplo, a Bélgica tem a tradição de vários músicos que adoro como: Marc Moulin, Francis Boon, Toots Tielemans, tem a banda Cos que tem um disco chamado Train Roberry, o roubo do trem; são músicas que parece que as pessoas beberam cerveja para fazê-las, porque elas são expansivas. A música do Francis Boon é muito expansiva, assim como a do Marc Moulin, que ainda é vivo e mora lá na Bélgica. É um país de grandes artistas e acho que isso influencia.

Então, para cada música há uma cerveja adequada e vice-versa?
Acho que uma Cantillon é Toots Tielemans; uma Achel já é Francis Boon. Já a Orval, que adoro, é tão diferente que combina mais com Marc Moulin; Orval é uma cerveja esquisita; eu gosto dela porque ela é esquisita; o que dá mais qualidade a ela. O que é comum, banal, docinho, não me interessa; gosto do esquisito, do amargo, do diferente. Orval, há tanto tempo que não bebemos Orval!

O que você acha do lançamento de uma revista de cervejas no Brasil?
Achei revolucionário, porque é um país que teoricamente se diz apreciador da cerveja e as pessoas vão aprender a bebê-la, como aprenderam a beber vinho. Então, acho muito importante ter uma publicação sobre essa bebida milenar e que as pessoas não tem a mínima idéia de quão complexo é esse mundo.