Duvel um diabo de cerveja
Criada em 1871, a Duvel faz do tempo
um aliado para a tradição e perfeição
de sua marca
por Xavier Depuydt fotos Ricardo D’Angelo
Amarelo intenso, brilhante, quase luminoso e espuma
cremosa, densa, com muito perfume de lúpulo e
deliciosos toques frutados. Uma cerveja única,
de sabor inconfundível. Assim é a Duvel,
maravilha que nasceu em 12 de setembro de 1871, quando
Jan Leonard Moortgat, descendente de uma família
de cervejeiros, com a mulher, Maria Hendrika De Block,
construíram a cervejaria no centro da cidade
de Breendonk (próximo a Antuérpia). Para
que o projeto familiar fosse coroado de êxito,
Jan Leonard mandou o filho mais velho, Jozef, para o
Institute Supérieur de Brasserie e Gent, a primeira
escola de cervejeiros da Bélgica, construída
em 1885. Com o diploma na mão, o cervejeiro achava
que o filho poderia continuar seu trabalho, mas não
contava com as peças do destino. Infelizmente,
Jozef faleceu em 1913, deixando a administração
para seus dois irmãos, Albert e Victor Moortgat.
O legado de Josef, porém, ficou marca do na
história da empresa. No último ano sob
o seu comando, a cervejaria comprou 116 000 quilos de
malte, número muito maior do que as outras 3
200 cervejarias, que existiam na Bélgica naquela
época. Victor e Albert não tiveram muita
sorte: um ano após conquistarem a liderança
da cervejaria, teve início a Primeira Guerra
Mundial. Como muitas empresas, as cervejarias belgas
sofreram nesse período. Os alemães confiscaram
os tanques de cobre e os cavalos das cervejarias. Como
não conseguiam comprar malte, era quase impossível
produzir cerveja.
Contudo, os dois irmãos não desistiram
e, em 1916, começaram a produzir duas novas marcas:
a Pallieter e a Victory Ale. A Victory Ale foi elaborada
com um fermento especial que Albert trouxe da Escócia.
Foi essa cerveja que, posteriormente, ganhou o nome
de Duvel. O nome mudou em 1923 quando um funcionário
falou para o cervejeiro que a cerveja era um verdadeiro
diabo.
A Duvel original não tinha a mesma cor que
apresenta hoje. Tinha uma cor âmbar, que lembrava
as cervejas inglesas. Apenas depois de 50 anos, em 1969,
foi que a cor ganhou os aspectos que mantém até
hoje. Desde então, a Duvel é produzida
com malte de Pilsen. Entretanto, vale lembrar que durante
muito tempo a Duvel não foi a principal cerveja
da empresa. A Moortgat tinha uma Pilsen chamada Bel
Pils, que era o carro-chefe da cervejaria.
Isso mudou após a Segunda Guerra Mundial, quando
a terceira geração da família assumiu
o controle da empresa. Os filhos de Victor Moortgat
– Leon e Emile –, e de Albert – Bert
e Marcel – foram os responsáveis pelo crescimento
da Duvel no setor. Nos anos 60, eles decidiram abandonar
o mercado de Pilsen e concentraram-se nas cervejas especiais,
principalmente na Duvel, fazendo dela a pioneira e referência
do tipo Strong Golden Ale.
Em 1966, a Moortgat fechou um contrato com a cervejaria
Carlsberg para produzir e engarrafar a cerveja Tuborg.
Esse contrato foi o primeiro passo para a Moortgat crescer
e investir no sucesso da Duvel, que antes era conhecida
apenas regionalmente.
A Duvel verde, que é a mais leve, ficou conhecida;
porém, foi a Duvel vermelha que mudou totalmente
a história da cervejaria, que, até os
anos 60, tinha 80% da produção de Pilsen
e 20% de Ale. Nos anos 1990, os números mudaram
para 80% de Ale contra 20% de Pilsen.
Todas as gerações da família
Moortgat foram reconhecidas por fazerem muitos filhos,
o que tornou-se um perigo para o futuro da cervejaria.
As ações ficaram cada vez mais pulverizadas.
Em 1998, foi feita uma reconstrução na
empresa. Philippe, Michel e Bernard Moortgat (já
da 4a geração) conseguiram uma participação
de 62%. Essa parte da família foi ainda fortalecida
com os 11% que Veerle Baert, prima de Michel Moortgat,
possuía. Esses três acionistas familiares
da Moortgat fazem parte, atualmente, do conselho administrativo
da cervejaria, na qual, Michel Moortgat é o CEO
(em português, chefe do setor executivo).
Para financiar a expansão da empresa, foi decidido,
em 1999, colocar um parte das ações na
bolsa de valores. Depois da cotação na
bolsa, a família ainda ficou com 70%, ou seja,
a estabilidade garantida.
A CERVEJARIA
A cervejaria não possui tanques de cozimento
de cobre como muitas na Bélgica. Por uma questão
de energia, optaram por colocar todos os tanques atrás
de paredes. A água provém de uma fonte
de 360 metros de profundidade. Como a Duvel é
uma Ale, a água é tratada para ter caracteristicas
parecidas com as provenientes da cidade de Burton-on-Trends,
na Inglaterra, que é a meca das Ales. Lá,
a água tem mais sulfato de cálcio e gesso,
por causa das montanhas de giz da costa da Inglaterra.
A água da Cervejaria Moortgat não tem
sulfato de cálcio, porém, conta com muito
carbonato. Por isso, a água é primeiramente
desmineralizada e depois é inserido sulfato de
cálcio, o que dá certa dureza à
cerveja. O lúpulo utilizado vem de Saaz e Styrië,
da República Checa. A cevada é proveniente
da França.
Eles trabalham em três equipes, que juntas produzem
160 000 litros ao dia. Até hoje, é usado
o fermento da Escócia. Em 2008, será montada
nova sala de cozimento e a produção pode
ser triplicada.
Após a produção vem a maturação.
A Duvel possui atualmente 24 tanques de maturação
com capacidade para 20 000 litros cada um. Depois da
instalação dos tanques cilíndricos,
os tanques deitados somente são utilizados para
a maturação da Maredsous (outra cerveja
do grupo). Hoje, possuem 20 tanques cilíndricos
em uso, sendo 16 de 200 000 litros e quatro de 100 000
litros. Após esse processo, as cervejas passam
por uma centrífuga e uma filtração
de placas.
ENGARRAFAMENTO
Depois de todos esses processos, chega, finalmente,
a hora de engarrafar a bebida. A Duvel conta com uma
engarrafadora capacitada para trabalhar 55 000 garrafas
por hora. Possui também um equipamento único,
o Rotocheck, uma máquina que capta qualquer defeito
no produto. Depois de engarrafadas, as cervejas vão
para uma câmara quente com temperatura de 22 oC
durante 24 horas e ficam lá por duas semanas.
Possuem também câmaras frias, nas quais
permanecem por mais cinco semanas. A regularidade da
fermentação é uma das principais
diferenças.
O CO2 é muito importante para essa cerveja e
ela possui 8,5 g/litro. Na Pilsen, são usados
somente 4,8 a 5 g por litro. E é por isso que
a Duvel não existe em barris e não é
pasteurizada; além disso, sua validade é
de três anos. A produção total da
cervejaria, atualmente, é de 280 000 hectolitros
por ano, sendo que 264 000 hectolitros são de
Duvel. Várias tentativas de copiar a Duvel já
foram feitas. Todas sem sucesso.
COMO SERVIR A DUVEL
Quando servir uma Duvel, diferentemente do recomendado
para as cervejas de trigo, não se deve colocar
no copo o restinho, o fundo da garrafa. Lá, ficam
depositados a levedura e o fermento. Sempre deixe 1
centímetro na garrafa. Esse restinho muda a cor
e deixa a cerveja muito mais amarga.
OUTRAS ESTRELAS
A cervejaria Moortgat produz também as cervejas
Vedett; Bel Pils; Maredsous 6; 8 e 10 anos. Possuem
também 50% da cervejaria Czech. Recentemente,
a Duvel comprou a Cervejaria Achouffe, na Bélgica.
|