Os sucessos de Buttenheim

Nessa pequena cidade, onde nasceu o criador do jeans Levi’s, se bebe uma das melhores cervejas da Alemanha

texto e fotos Juliano Mendes

Levi Strauss foi um inventor fantástico. Basta olhar à sua volta e perceber quantas pessoas vestem calças jeans. Levi inventou-as em 1853, para uso dos mineiros que trabalhavam no oeste americano em busca de ouro. De lá pra cá, sua invenção levou a marca Levi’s a ser uma das maiores empresas de vestuário do mundo. Mas o que Levi Strauss tem a ver com o mundo da cerveja e com os assuntos abordados por esta revista? Acontece que o alemão Levi Strauss nasceu em uma cidade chamada Buttenheim, na Franconia, a região com a maior concentração de cervejarias do mundo. E Buttenheim, além de terra natal do mítico Levi, é berço de uma das melhores cervejas da Alemanha.

Nessa pequena cidade, podemos encontrar um museu com pertences de Levi, exatamente na casa em que ele foi criado. E a poucos metros de lá fica a cervejaria St. Georgen Bräu, fundada em 1624, produtora da clássica, mas pouco conhecida, Kellerbier. Com uma produção de 10 milhões de litros por ano, uma das maiores da região, produz além da famosa St. Georgen Bräu Keller Bier (4,9%), as cervejas St. Georgen Bräu Helles (4,6%), St. Georgen Bräu Weiß-Bier (4,6%), St. Georgen Bräu Pilsener (4,9%) e St. Georgen Bräu Land-Bier (4,9%). Sua linha de produtos inclui ainda as cervejas sazonais St. Georgen Bräu Gold-Märzen (5,6%), Georgen Bräu Anna-Festbier (5,6%) e Georgen Bräu Schwarz-Bock (7,3%).

Mas vamos falar da Kellerbier, a mais ilustre filha dessa cervejaria. Trata-se de uma cerveja muito seca e lupulada, de coloração acobreada e não filtrada, com leve turvação.

A tradição manda servir a Kellerbier sempre em canecos de cerâmica, os chamados “Krug”. Diz a lenda que o uso do caneco de cerâmica tinha o objetivo de esconder o aspecto turvo da cerveja, considerado indesejado na época. Uma das características mais importantes que definem o estilo e a diferencia de outras cervejas alemãs é sua baixa carbonatação. Antes do início da utilização de tanques de aço inoxidável, essa cerveja era fermentada em grandes tanques de madeira que tinham uma válvula de alívio de pressão na parte superior, chamada Spund, que regulava o volume de CO2 que saía do tanque. Durante a fermentação, o“Spund” era afrouxado para evitar que a pressão criada durante a fermentação levasse o tanque de madeira a explodir. Com isso, havia o vazamento de gás, deixando a cerveja pouco carbonatada.

Outra importante diferença no processo da Kellerbier é que ela não é mantida sob pressão durante a maturação. Isso também leva a cerveja a ficar com pouco gás. Por isso, essas cervejas também são conhecidas como Ungespundet, que significa “sem Spund”. Antes de chegar ao copo para ser degustada, mais uma vez elas perdem gás carbônico, pois são geralmente extraídas dos barris (de madeira) por gravidade, e não por pressão de CO2.

A CERVEJARIA

A visita à fábrica da St. Georgen Bräu vale também para conhecer o Bräustübla, restaurante e bar da cervejaria em que se pode degustar a Kellerbier fresquíssima, acompanhada de pratos típicos da Franconia. Para quem exagerar na quantidade de canecos, do outro lado da rua, fica um pequeno hotel da cervejaria. Em setembro do ano passado, pude passar por essa experiência inesquecível. Talvez a melhor coisa de ser produtor de cerveja seja a possibilidade, ou melhor, a necessidade de, de tempos em tempos, partir em viagens aos tradicionais países produtores em busca de cervejas especiais, sabores locais e experiências como essa que tive em Buttenheim. O motivo da viagem foi conhecer a Oktoberfest de Munique e em seguida visitar a região de Hallertau, famosa produtora de lúpulos de excelente qualidade. Mas acabei incluindo no roteiro uma rápida passagem por Buttenheim para conhecer a fábrica e degustar essa preciosidade diretamente da fonte.

AMOR À PRIMEIRA DEGUSTAÇÃO

Conheci a St. Georgen Bräu Kellerbier por acaso. Há dois anos, em outra viagem “cervejeira” pela Franconia, acompanhado de meu pai, Jarbas, e meu irmão, Bruno, acabamos passando por Bamberg, em busca das clássicas Rauchbier, cervejas produzidas com malte defumado. Para nossa decepção inicial, a Schlenkerla, a mais famosa produtora de Rauchbier, estava fechada. Com um frio congelante muito abaixo do zero grau, vimo-nos obrigados a entrar em um “Kleine Kneipe” (pequeno boteco) do outro lado da rua, na esperança de provar pela primeira vez a Schlenkerla Rauchbier. Já acomodados e ainda chocados com o sabor defumado da cerveja, partimos para a próxima rodada. Acontece que o sabor marcante da Schlenkerla, produzida com mais de 90% de malte defumado, não agradou a todo mundo. Por sugestão do garçom, acabamos conhecendo outra cerveja local, a St. Georgen. A explosão de aroma de lúpulo encantou a todos. Foi amor à primeira vista, ou melhor, à primeira degustação.

NO CRIVO DOS EXPERTS

Antes de partir para a Alemanha, consultei o Good Beer Guide Germany, que lista mais de 1.250 cervejarias do país. Essa bíblia das cervejarias alemãs, publicada pela associação Britânica Camra, e de autoria de Steve Thomas, também inclui a St. Georgen Bräu. Qual não foi minha surpresa ao ver que a cervejaria constava entre as cinco preferidas do autor, entre mais de 7.500 cervejas produzidas no país. E surpresa maior ainda foi ver a St. Georgen Kellerbier na lista das dez melhores cervejas da Alemanha, na opinião do beer hunter inglês Michael Jackson, considerado um dos melhores críticos de cervejas do mundo. Em sua coluna fixa na revista americana All About Beer, edição de julho de 2006, Michael a inclui nessa seleta lista.

Eu, particularmente, concordo com Michael e Steve. A Saint Georgen Brau também está entre as minhas top 10. E não apenas da Alemanha, mas do mundo todo!

CURIOSIDADE

Se você for à Franconia, perceberá que é muito comum na Alemanha se sentar à mesa com estranhos. Portanto, não se esqueça de seguir o tradicional ritual daquela região, que é bater duas vezes na mesa antes de partir. É apenas uma maneira de se despedir daqueles que ficam.

 

St. Georgen Bräu
Marktstrasse 12, 96155
Buttenheim
Tel. 09545 44 60
www.kellerbier.de
Fecha às quintas-feiras. De sexta-feira a quarta, funciona das 9 h à meia-noite. Para quem for de trem, Buttenheim fica na linha entre Bamberg e Nuremberg. A cervejaria
fica a 1,5 km da estação de trem.