A Cantillon, criada em 1900, é
uma das únicas do mundo que fazem cervejas de
fermentação espontânea
por Xavier Depuydt fotos Ricardo D’Angelo
Além de Bruxelas ser um local primoroso para
os amantes de cerveja, é o único lugar
em que ainda se produz cerveja de fermentação
espontânea. Essa produção fica por
conta da Cervejaria Cantillon que está sob a
administração da mesma família
desde a inauguração, em 1900. A Cantillon
está situada a 5 minutos de Gare de Sul (Estação
Rodoviária Sul). Posso descrevê-la como
pequena e artesanal. Todos os visitantes são
recebidos por alguém da família e eu,
em especial, fui recebido por Jean Pierre, dono da cervejaria.
Pierre é um autêntico Brusselaar (dialeto
de uma pessoa que mora em Bruxelas e fala flamengo).
A cervejaria, a única existente em Bruxelas,
é aberta diariamente e é fácil
de visitar. Sua produção anual chega a
1.200.000 litros de cerveja. Essa meta é alcançada
graças à dedicação da esposa
e dos filhos de Jean Pierre. A cervejaria conta com
apenas um funcionário, fora os familiares. A
Cantillon produz cervejas como as que eram feitas há
6.000 anos atrás, antes mesmo da lei de Louis
Pasteur, de 1926, inventor da fermentação.
A fermentação ocorre espontaneamente,
graças ao contato do malte com o ar. Malte é
a junção de extrato de grão de
trigo e água. Essa mistura deve ser aquecida
a 45 oC, formando uma pasta. Adiciona-se mais água
para obter o malte mais líquido. A temperatura
chega a 72 oC. A miscelânea fica adocicada naturalmente,
pois não é utilizado açúcar
na produção. Um microorganismo que existe
no ar transpõe a cerveja e dá início
à fermentação natural. Nesse microorganismo
encontram-se mais de 70 bactérias diferentes.
Posteriormente, o malte vai para um tanque em que ficará
fervendo. Quando está com cerca de 10.000 litros,
é transferido para outro tanque onde recebe o
lúpulo, que vem diretamente da Alemanha e ajuda
a conservar o Lambic e depois o Gueuze. Diversos restaurantes
em Bruxelas servem Gueuze de mais de 20 anos.
Durante toda uma tarde, o malte é cozido a 100
oC. Quando uma parte começa a evaporar, estima-se
que em três horas, sobrarão 7.600 litros.
Nesse momento, o malte é completamente estéril
e muito mais açucarado que antes. A concentração
do açúcar acontece devido à evaporação
de uma parte do malte, que não será mais
fervido quando for criado açúcar suficiente
para chegar a 5% de teor alcoólico. O momento
mais importante se inicia quando o malte é bombeado
para tanques abertos de fermento, que se encontram no
sótão. Para a maioria das cervejarias,
o ar é o inimigo da cerveja, mas com a Cantillon
é diferente. Sem o ar não existiria a
Cantillon Gueuze.
Nessas piscinas abertas, o malte será resfriado
até que, um dia depois, ele chegue a 18 oC. Por
esse motivo, essa cerveja, excepcionalmente, é
produzida entre novembro e março. Quando o malte
atinge 40 oC, o microorganismo que está no ar,
ingressa na cerveja e dá início à
fermentação espontânea. Ao atingir
essa temperatura, o malte é bombeado para os
barris de carvalho. A Cantillon produz barris de 600,
400 e 225 litros. São enchidos completamente
e ficam abertos. Após três ou quatro dias,
as bactérias começam a se reproduzir e,
passadas duas semanas, 75% dos açúcares
concentrados são transformados em cerveja. Esse
processo produz uma grande quantidade de gás
carbônico, formando muita pressão. Por
esse motivo, o barril não deve ser fechado.
Depois de duas semanas, os barris são fechados
e a cerveja fermentará durante três anos,
ou seja, nesse tempo, o restante do açúcar
se transformará em cerveja. Isso mesmo, leitores,
são duas semanas para obter 75% da cerveja e
três anos para alcançar o resultado total.
O efeito obtido é um vinho de grãos, uma
cerveja que não tem espuma e que é encontrada
com o nome de Grand Brusacella. Além disso, para
adquirir gás carbônico, é adicionado
Lambic de três, dois ou um ano. Os Lambics de
dois e de um ano não possuem açúcar.
Ao colocar essa mistura em uma garrafa, mudamos o nome
de Lambic para Gueuze.
A Gueuze é uma Lambic pura, porém, passada
por uma segunda fermentação. Após
três anos sobram 5.000 litros dos 10.000 que havia
no início do processo. O cantor e colunista Ed
Motta degustou algumas dessas cervejas e garantiu que
elas são realmente divinas.
O QUE SIGNIFICA LAMBIC
A cerveja Lambic é o tipo mais antigo de cerveja
do mundo e a única com fermentação
espontânea. Existe somente um lugar no mundo onde
ela é produzida, a Bélgica! A história
da cerveja Lambic iniciou-se em 1400 e foi imortalizada
em quadro, na obra Festa de Casamento, pintada em 1568,
pelo famoso pintor belga Pieter Breughel. Mundialmente
conhecido, ele pintou uma festa em um bar perto de Bruxelas,
em que a famosa Lambic foi servida em jarros de barro.
Esses jarros são usados até hoje. Lambic
éproveniente do nome da cidade Lembeek, na Bélgica.
A produção da Lambic é, desde 1960,
feita com base num decreto real. Somente cervejas com
fermentação espontânea podem usar
o nome Lambic. Ela precisa ter no mínimo 30%
de trigo. Já a Gueuze Lambic necessita ter no
mínimo 51% de cerveja obtida por fermentação
espontânea. Em 1993, o decreto foi derrubado pelas
grandes cervejarias e foi decidido que a cerveja Lambic
não precisaria ser composta de 100% de fermentação
espontânea. Poucos ainda usam esse processo, já
que os custos são altamente elevados. Hoje, os
nomes Lambic, Kriek e Gueuze não são mais
registrados. Porém, algumas cervejarias usam
o nome erroneamente em cervejas que demoram apenas três
meses para ser produzidas. Lembrem- se, a legítima
é feita num período de três anos.
Atualmente, a Cantillon é considerada referencial
de Gueuze no mundo.
RESPONSABILIDADE SOCIAL
Na Bélgica, alguns fazendeiros, preocupados com
a qualidade do solo e do meio ambiente, decidiram não
utilizar mais fertilizantes químicos e inseticidas.
Assim, começa a chamada agricultura alternativa.
Interessada em fazer parte desse projeto ambiental,
em 1999, a Cervejaria Cantillon aderiu à antiga
maneira de produzir. Todas as cervejas da empresa passaram
a ser fermentadas com cereais biologicamente criados
(sem agrotóxicos) e eram fiscalizadas pela equipe
de vistoria da Ecocert (órgão para certificação
de cosméticos naturais e orgânicos). Atualmente,
as garrafas possuem uma etiqueta com a palavra “bio”,
que indica essa responsabilidade com a natureza, o que
garante que os cereais utilizados na fabricação,
não contêm agrotóxicos. Essa regra
não vale para as cervejas frutadas, já
que cerejas e framboesas não são cultivadas
biologicamente.
COMO SURGIU A GUEUZE?
Essa cerveja nasceu de experiências. O mestre
cervejeiro misturou diversos Lambics (tipo de cerveja
levemente amarga), ou seja, de várias idades
e diferentes gostos e, com base nessa heterogeneidade,
nasceu a cerveja Gueuze. Cada mistura produz uma Gueuze
diferente, e já que o processo é feito
com ingredientes naturais, não se pode apontar
um resultado padrão.
Todas as cervejas à base de Lambic têm
como característica a acidez no sabor; o amargor
e o gosto adocicado são mais relevantes em umas
do que em outras; isso ocorre porque existem vários
tipos de Lambic e conseqüentemente diversos de
Gueuze.
Uma qualidade peculiar na cerveja tipo Gueuze é
que, além de possuir fermentação
espontânea, ela fica armazenada em barris de madeira
de carvalho, atingindo a maturidade somente três
anos depois da fabricação. Depois disso,
ela já possui um sabor caracteristicamente aromático.
Durante o processo , o cervejeiro experimenta uns dez
Lambics de diferentes barris e escolhe cinco ou seis
para a produção do Gueuze 100% Lambic,
formando uma Cantillon original. O toque final é
dado ao deixar as garrafas deitadas no solo da cave
e permitir que fiquem lá pelo período
de um ano, tempo suficiente para que os açúcares
se transfigurem em gás carbônico, o que
chamamos de refermentação em garrafa.
Sabemos que a cerveja está no ponto quando começa
a mostrar espuma: ela se transformou numa Gueuze.
TIPO KRIEK
Servida desde o século XIX, essa é a mais
famosa das cervejas frutadas. Todos os anos, são
enviados 4.000 quilos de cereja para a Cervejaria Cantillon,
vindos especialmente da região de Gorsem, na
Bélgica. São utilizados 150 quilos de
cereja para cada barril de 600 litros. Para dar início
ao processo, procura-se um Lambic de aproximadamente
um ano e meio. Após cinco dias do enchimento
dos barris com a cereja e a cobertura dos buracos, a
fermentação começa. Os açúcares,
tanto da fruta quanto do Lambic, iniciam a técnica
de fermentação na madeira do barril e
na casca da cereja e, exatamente no mês de agosto,
deve estar terminando.
A fermentação da Kriek tem início
geralmente em outubro. Dois canos da tipo Kriek e da
tipo Lambic do primeiro extrato (fase da fermentação)
e dois canos do segundo extrato (obtido por meio do
esvaziamento do barril com o líquido formado
pelo fermento e a fruta que, depois, foi bombeado novamente
no mesmo barril para extrair o máximo da fruta)
são bombeados juntos num grande barril. Pode
ser que seja adicionada uma Lambic jovem e uma quantidade
de Kriek para obter uma melhor fermentação
na própria garrafa. A Kriek é saturada
de maneira natural, geralmente, de três a cinco
meses na garrafa.
Chega o momento de saborear. Recomendo que a cerveja
Kriek seja apreciada após um ano de engarrafamento.
Durante a fermentação, o gosto sofre modificações;
ela recebe aquele sabor dominante e seco, como o da
velha Lambic; a cor fica oleosa e não mais vermelho-escuro.
Algumas pessoas deixam as garrafas de Kriek deitadas
por muitos anos antes de degustá-la. Tradicionalmente,
ela é servida no verão; é excelente
para matar a sede e é muito saborosa. Pode ser
acompanhada de sanduíche de queijo (tipo cream
cheese), e salada de rabanetes e cebolinhas.
OUTROS TIPOS DE CANTILLON
Rosé de Grambinus –
Segundo a Cervejaria Cantillon, essa cerveja de framboesa
foi produzida em 1909; contudo, ainda restam dúvidas
sobre essa data. O processo de produção
é o mesmo da Kriek ,sendo que o sabor da fruta
também domina quando a cerveja ainda é
jovem. Com os anos, o gosto da Lambic se pronuncia e
o sabor da framboesa diminui.
Grand Cru Bruoscella – Cerveja
do tipo Lambic que amadureceu durante três anos
em barril de carvalho e possui uma cor única,
sabor inigualável e perfume agradabilíssimo.
É bombeada diretamente dos barris para a garrafa.
Suas características principais são: cor
amareloouro, com reflexos âmbar, aromas irresistíveis
de maçã e de mel, sabor rico e suavemente
ácido e caráter seco. Com o passar dos
anos, essa cerveja adquire um perfume aprazível
e gosto delicado de pão torrado. Para alguns
apreciadores, poderia ser comparada a um vinho branco,
tipo Borgonha feito com a uva Chardonnay. É considerada
um patrimônio nacional. Ideal para ser apreciada
com pratos refinados, com frutos do mar ou carnes finas.
Com chucrute fica simplesmente deliciosa. Essa cerveja
é resultado de uma ação de microorganismos;
não contém gás carbônico
e, conseqüentemente não possui espuma e
não fermentou em garrafa. Suas peculiaridades
fazem com que essa cerveja se pareça muito com
vinho. É impressionante como seus sabores variam
de acordo com o tempo que foi armazenada. Sua degustação
deve ser feita em taças de vinho.
Íris – Foi criada pela
cervejaria Cantillon para celebrar o 20o aniversário
do Museu de Gueuze, em 1998. Produzida com fermentação
espontânea, a cerveja recebeu o nome de uma flor
de pantanal, que vive num ambiente úmido. O Centro
Histórico de Bruxelas foi construído em
cima de um pantanal onde havia muitas dessas flores.
A cerveja Íris é produzida somente com
malte do tipo Pale-Ale, formando aromas complexos e
criando sabores como o do vinho. O lúpulo utilizado
na produção da cerveja é 50% fresco
e 50% envelhecido. O lúpulo novo oferece à
cerveja um toque de sabor amargo, enquanto o lúpulo
com mais de três anos permite que a cerveja tenha
conservação longa. Após dois anos
de amadurecimento nos barris e duas semanas antes do
engarrafamento é acrescido lúpulo novo.
Um saco de linho com lúpulo aromatizado é
depositado nos barris e deixado durante duas semanas
na cerveja. A técnica, nomeada lupular a frio,
permite obter uma cerveja com sabor amargo e rico. A
cerveja Íris é produzida somente uma vez
por estação. Ao acrescentar o licor, a
cerveja fermentará novamente na garrafa. Ela
difere enormemente da Lambic. Sua cor é levemente
âmbar e o gosto é caramelo amargo.
Vigneronne – Composta de uvas
brancas, essa cerveja foi criada em 1973. Em 1987, ela
recebeu o nome Vigneronne Cantillon. As frutas são
deixadas de molho na cerveja Lambic. Devido à
frutose presente em abundância na uva, ela resulta
numa cerveja mais suave e redonda que a Gueuze ou outras
cervejas frutadas. Trata-se de um produto com fermentação
espontânea, porém, que amadureceu durante
anos devido à adição de açúcar.
É como um “primo distante” do vinho
branco. As frutas são compradas no final da estação
no intuito de adquirir frutas bem maduras. Todo ano,
no mês de outubro, uma tonelada de uvas italianas
é fornecida. O engarrafamento é feito
sem a mistura de outros ingredientes e a cerveja refermentará
graças à adição de um licor
açucarado. Essa cerveja possui um símbolo
dos alquimistas; uma estrelacom seis pontas. Trata-se
da estrela da cerveja. Ela representa os quatro elementos,
simbolizados por triângulos, no ciclo da produção
de cerveja. O fogo representa o caldeirão; a
terra representa os grãos; o ar representa a
fermentação e, por fim, a água.
Somente ao cervejeiro da Lambic pode-se permitir usar
esse antigo símbolo.
Saint Lamvinus – Essa cerveja
nasceu de um vínculo entre alguns produtores
de vinhos na região de Labourne (Saint Emilion
e do Pomerol) e a Cervejaria Cantillon. Esses produtores
de vinho, apesar do trabalho paralelo, produzem seus
vinhos naturalmente. As uvas Merlot e Cabernet Sauvignon
são deixadas de molho nos barris, provenientes
de Bordeaux, em uma cerveja Lambic por dois ou três
anos. O engarrafamento também acontece sem mistura
de outros ingredientes. A espuma é provocada
com a adição de um licor que levará
à fermentação.
Fou F’one – Em 1998, Jean-Pierre
(proprietário da cervejaria) encontrava-se de
visita na casa de alguns amigos no Valle do Rhône.
Lá, ele encontrou o senhor François Daronnat,
cujo apelido é Foufoune; o homem era um produtor
de abricó (fruto do abricoteiro, semelhante ao
damasco, porém, maior). Por muito tempo, Jean-Pierre
cantou sobre esses deliciosos abricós tipo Bergeron,
sendo os mais belos e suculentos, com o sabor doce e
amargo ao mesmo tempo. “Com esses abricós,
você poderia produzir uma cerveja deliciosa, meu
caro François”, falou o cervejeiro. E,
assim, numa manha do mês de julho do ano de 1998,
Jean- Pierre encontrou 300 quilos do fruto em frente
à sua porta. O resultado é notório
até hoje. No início, só uma quantidade
restrita dessa cerveja de abricós – Lambic
foi servida ao redor da região, da parte francesa
da Bélgica. Com o sucesso crescente dessa cerveja
provincial, a cada ano são fornecidos 1.200 quilos
de abricós à Cervejaria Cantillon. A semente
do abricó é retirada à mão
e depois é bombeada para um barril com a cerveja
Lambic, de mais ou menos dois anos de idade. O sabor
e os aromas da cerveja vão rapidamente sofrer
uma transformação. Depois de dois meses,
a cerveja Fou F’oune será engarrafada.
É uma cerveja levemente amarga e de cor ouro-branco.
Lou Peppe – A cerveja tipo Gueuze
Lou Pepe, é produzida com Lambic de dois anos
de idade com sabor suave, a maioria proveniente de barris
em que se guardou vinho antigamente. Em julho de cada
ano, esse tipo de cerveja é usado para produzir
a famosa Kriek e a cerveja de framboesa Lou Pepe. A
cerveja é armazenada em barris provenientes da
região de Bordeaux, na França. Nessas
cervejas, excepcionalmente, a refermentação
dentro das garrafas não é provocada devido
ao acréscimo de mais Lambic, e sim, em razão
da adição de um licor bem acuçarado.
Dessa forma, o fermento transforma os açúcares
em gás carbônico. Todas as cervejas tipo
Lambic são produzidas na mesma estação
e, nas garrafas da “Lou Pepe”, nota-se o
ano da produção. O uso de licor em vez
de Lambic provoca um sabor mais intenso da fruta. As
cervejas Lou Pepe contêm mais ou menos 300 gramas
de fruta por litro. Com esse sabor pronunciado da fruta,
combinado com o sabor de vinho, proveniente dos barris
de Bordeaux (onde antigamente se guardava vinho), temos
a certeza do que essa cerveja realmente difere das outras
da Cervejaria Cantillon. O nome particular dessa cerveja
é proveniente da região sudeste da França,
uma região muito querida da família Van
Roy, fundadora da Cervejaria Cantillon. Nessa bela região,
a avó da família recebeu o apelido de
“Lou Pepe”.
|