B de Basque

Viajar é bom demais, melhor ainda é poder descobrir outras cervejas, que é um divertimento único. Assim, no ano passado, ao constatar que no povoado vizinho à aldeia natal de minha bisavó havia uma microcervejaria, perguntei-me: por que não visitar o passado e degustar uma boa cerveja?

texto e fotos Marcelo Carneiro

Com um Citroën alugado, estalando de novo, fui serpenteando pelas estradas apertadas do País Basco francês. Dentro dele, minha esposa e eu tínhamos um destino certo, Montory, província basca da Soule, e o povoado vizinho, Liq Aterey. As duas localidades, teimosamente agarradas às fraldas dos Montes Pirineus, não figuram nos grandes mapas nem fazem parte de nenhum super-roteiro histórico ou de charme, mas para mim têm grande significado. De Montory veio meu sangue, e de Liq Aterey vem uma cerveja que, adivinho, será deliciosa e, de alguma forma, misteriosa, e através do tempo ligará este bisneto que vos escreve à bisavó francesa que jamais conheceu.

Todo ser humano tem uma tendência perversa a magnificar e falsear seu histórico familiar, e eu não sou nada diferente. Montory era para mim algo como um Monte Olimpo habitado por antepassados. De uma história de oito irmãos que há mais de um século deixaram essas montanhas para fazer o Novo Mundo sobrou pouco: um nome de rua na pequena cidade de Mauléon, algumas histórias familiares e nenhuma foto. Terreno fértil para uma viagem de sonho.

Après le rond point, tournez à droite – sussurra o GPS do carro e, eu acredito, é melhor acreditar nele do que perguntar a algum desses desconfiados pastores de ovelhas bascos, que insistem em atravessar a pista molhada de chuva, seguidos de seus rebanhos de Brebis – palavra que aqui nomeia a ovelha e seu queijo tradicional. Aliás, quem já comeu um queijo Brebis com geléia de cereja preta sabe: podem-se acusaros bascos de muita coisa, menos de ter pouca personalidade.

A viagem é monótona nessas pequenas colinas que me fazem lembrar Minas Gerais. Para passar o tempo, recito estranhos mantras, Akerbeltz – o bode negro da mitologia basca e também o nome da cerveja que me espera; Basabürüa – o nome da cervejaria que a fabrica; Xuria – branca em língua basca; Navarra – localidade espanhola produtora de malte de qualidade; Barrénne – o sobrenome de solteira de minha bisavó. Sobre as placas da estrada, os nomes estranhos também se multiplicam. Primeiro, com sua tradução francesa, depois só em basco. Será que minha bisavó falava basco? Provavelmente, sim, mas essa certeza também se encontra amarelada pelo tempo.

Escolhemos pousar em Montory mesmo, por estarmos cansados. De uma cabine telefônica, faço a reserva no L’Auberge de L’Etable, um desses modestos hotéis franceses, cujo restaurante mereceria várias estrelas num Guia Michelin menos severo. Ao chegar lá, constato, Montory não é tão grande quanto nos meus sonhos. Só existe um hotel neste minúsculo vilarejo de 300 e poucas almas orgulhosamente bascas.

Na recepção, explico minha condição de bisneto pródigo e arqueólogo cervejeiro a um espantado rapaz. Da família Barrénne, ele não conhece ninguém, mas sabe da existência da Rue des Frères Barrénne, em Mauléon. Já sobre a cervejaria, boas notícias, o cervejeiro é seu amigo. Prontamente, é marcada uma visita para a segunda-feira próxima, o que nos deixa o fim de semana livre para explorar a região. O hotel oferece algumas opções de aventura, aluguel de quadriciclo ou de veículo 4 x 4, para explorar a região e praticar rafting. Sou obrigado a declinar a oferta com algum pesar, pois minha mulher gosta de outros programas.

DEGUSTAÇÃO PRAZEROSA
No jantar, à noite, Akerbeltz faz sua primeira aparição, sim, no hotel eles a servem. Peço uma Xuria, a branca de trigo. A garrafa vem com o bonito rótulo rubro, em que se vê o bode preto, Akerbeltz: “Meu bodinho, vim do Brasil para te tomar. Que aroma!”. A primeira impressão já deixa claro, estou prestes a degustar uma cerveja feita com lúpulos finos, pouco esterificada, mas com personalidade própria. A cor de um âmbar claro quase branco e translúcido denuncia: aqui está uma bebida leve, ideal para ser consumida no verão.

Os primeiros goles descem aveludados, o perfume floral do lúpulo aromático sobrepujando o amargor e deixando uma leve e agradabilíssima permanência na boca. Percebo o baixo teor de carbonatação que denuncia o gás que, aqui, vem provavelmente da própria fermentação, não tendo sido juntado posteriormente.

Adorei. Peço, agora, uma Gorrosta, uma âmbar de alta fermentação, não pasteurizada. Como todas as cervejas fabricadas aqui essa vem com um aroma parecido, mas com um sabor ligeiro de bala toffee, 5,5% de álcool. Também gostei dessa imensamente.

Minha esposa, pressentindo encrenca, pede um prato. Vem uma garbure, receita regional basca feita com repolho, legumes, feijão-verde e pedaços de pato ensopados. O casamento com a âmbar se mostra perfeito e fomos dormir satisfeitos.

No dia seguinte, vamos explorar a região, conhecer a tal Rue des Frères Barrénnes, algum castelo de segunda linha, e conversar com o muito gentil prefeito da cidade, que nos leva a conhecer a antiga casa de meus antepassados.

No domingo, programa carola, minha mulher cisma de ir à cidade de Lourdes, conhecer a Gruta Sagrada, onde a religiosa francesa Bernadette Soubirous avistou Nossa Senhora várias vezes. Concordo, desde que compremos um six pack de Akerbeltz Xuria para a viagem e que seja ela quem dirija. Lourdes, afinal, até que é agradável com seus ares de míni-Meca cristã. Ao beber água da fonte sagrada, não pude evitar o pensamento pagão: que tipo de cerveja faria esta água milagrosa?

Chega a segunda-feira, com muita chuva, vento e frio. Na hora marcada, esperamos à porta da cervejaria, que se encontra fechada, antecipando um outubro chuvoso demais. Passa meia hora, uma hora e nada de o cervejeiro chegar. Aos pés da cervejaria, um riacho de montanha começa a subir e a correr rápido. Decido fazer um tour a pé em volta da fábrica. Da janela, posso ver alguns tanques, máquinas de engarrafamento e estoques de garrafas. Após alguns minutos mais de espera, nada me resta senão pegar de novo a estrada, o riacho na parte de baixo da cervejaria agora ruge enfurecido e ameaçador.

Volto para casa um tanto contrariado, para depois receber do cervejeiro um e-mail em que ele explica seu forfait. Ele foi detido pela chuva forte e por problemas familiares. Pode ser, mas pode ser também que, do fundo da história, minha querida e desconhecida bisavó queira que eu volte mais uma vez a este recanto muito especial para tomar mais uma boa cerveja em sua memória.

Brasserie Basabürüa
Moulin Datto
64560 Licq-Athérey
Tel./fax 05-59-28-64-56
akerbeltz@free.fr
http://akerbeltz.free.fr/visite.htm
http://www.chez.com/montory/
http://www.auberge-etable.com/